Revista Real Conhecer - ISSN 2763-5473

LITERATURA E LOUCURA: REALIDADE E FICÇÃO SE UNEM NA OBRA O ALIENISTA DE MACHADO DE ASSIS

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DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.4676105



LITERATURE AND MADNESS: REALITY AND FICTION JOIN THE WORK OF THE AXIS OF ASSIS ALIENIST

 

 

Wagner Luiz da Costa Santos

Graduado em Letras - UFPB, Especialista em Estudos Linguísticos e Literários - UCAM/R, Mestrando em Tecnologias Emergentes em Educação - MUST University /USA . Professor de Língua  e Literatura na SEE - BA. E-mail: wagnerluizcostasantos@gmail.com

 

 

 

RESUMO

 

O presente trabalho busca verificar as ideias acerca da loucura na obra O Alienista, de Machado de Assis, uma das obras machadianas mais conhecidas, com uma estrutura que se distende em conjunturas inesperadas, alcançando temas psicopatológicos e sócio-culturais, nos possibilitando enxergar umas das mais belas formas de se abordar questões relacionadas a conflitos humanos e temas recorrentes, como a loucura, que podem ser vistos como mola propulsora para a criação literária e por isso, digna de um estudo que atente para a representação dos aspectos da loucura na literatura, bem como a maneira peculiar de Machado de Assis de abordar a temática, para trazer a tona problemas sociais, com uma crítica irônica e peculiar. Diante disso, é objetivo maior deste trabalhar analisar a representação da loucura na obra O Alienista, refletindo sobre seus aspectos sociais e culturais. Bem como, refletir sobre como a loucura é caracterizada e conceituada na obra em estudo, entendendo sua  relação com a sociedade. Para tanto, tomamos por aporte teórico, estudiosos como Foucault, Pessoti, Paim, Rotterdam, Barthes, Coutinho, Cândido, dentre outros que se fizeram necessários, configurando, assim nossa pesquisa como um estudo bibliográfico. Desta forma, inicialmente faremos um estudo dos teóricos citados, culminando com a análise literária da obra O Alienista, a fim de encontrar subsídios para realizar uma apreciação da obra em destaque, correlacionando, assim, estudos literários e teóricos.

 

Palavras chave: Literatura, Loucura, Machado de Assis.

 

ABSTRACT

 

The present work seeks to verify the ideas about madness in O Alienista, by Machado de Assis, one of the best known Machado works, with a structure that differs in unexpected conjunctures, reaching psychopathological and socio-cultural themes, allowing us to see one of more beautiful ways to address issues related to human conflict and recurring themes such as madness, which can be seen as a driving force for literary creation and therefore worthy of a study that pays attention to the representation of aspects of madness in literature, as well as Machado de Assis' peculiar way of approaching the subject, to bring up social problems, with an ironic and peculiar critique. Given this, it is the main objective of this work to analyze the representation of madness in the work The Alienist, reflecting on its social and cultural aspects. As well as reflect on how madness is characterized and conceptualized in the work under study, understanding its relationship with society. Therefore, we take as theoretical support, scholars such as Foucault, Pessoti, Paim, Rotterdam, Barthes, Coutinho, Candido, among others that were necessary, thus configuring our research as a bibliographical study. Thus, initially we will make a study of the aforementioned theorists, culminating with the literary analysis of the work The Alienist, in order to find subsidies to make an appreciation of the highlighted work, thus correlating literary and theoretical studies.

 

Keywords: Literature, Madness, Machado de Assis.

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

Joaquim Maria Machado de Assis é considerado um dos mais importantes escritores da literatura brasileira. Foi poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário, além de ser um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época, testemunhando as mudanças políticas no país, com a chegada da República. Filho de uma família humilde nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Mulato e vítima de preconceito, perdeu na infância sua mãe e foi criado pela madrasta. Superou todas as dificuldades da época, tornado-se um dos maiores escritores brasileiros.

            O Alienista é uma das obras machadianas mais conhecidas, com uma estrutura que se distende em conjunturas inesperadas, alcançando temas psicopatológicos e sócio-culturais, nos possibilita enxergar umas das mais belas formas de se abordar questões relacionadas a conflitos humanos e temas recorrentes, como a loucura, que podem ser vistos como mola propulsora para a criação literária e por isso, digna de um estudo que atente para a representação dos aspectos da loucura na literatura.

            Sendo a literatura um construto humano, podemos observá-la como representação da realidade, apesar de seus aspectos ficcionais. Assim, é de extrema importância atentarmos para os aspectos relacionados à psicologia humana, de forma especial a loucura tematizada na obra O Alienista, uma vez que podemos perceber que se trata de algo inerente ao homem essa relação entre normal /anormal; razão/loucura e por isso passível de estudos literários.

            Portanto, o presente estudo está pautado na análise do conto machadiano O Alienista,. Que foi publicado em 1882, incorporado ao livro Papeis Avulsos, que teria anteriormente sido publicado em “A Estação” (Rio de Janeiro) em 15 de Outubro de 1881 a 15 de Março de 1882 e está situado na segunda fase de Machado de Assis, conhecida como sua fase madura e realista do autor.

            O enredo da obra em análise se passa no século XIX, retratado a burguesia hipócrita da época. O autor se vale do personagem Dr. Simão Bacamarte (O Alienista) que se casou com D. Evarista, que não tinha nenhum atributo de beleza, mas tinha todas as chances de dar-lhe filhos robustos e inteligentes, o que não acontece, levando o doutor a dedicar-se ao estudo da medicina, em especial a neurologia, estudando assim a sanidade e a loucura humana, sendo justamente essa obsessão o ponto auto desta análise, ou seja, a relação entre loucura e texto literário, quais semelhanças, quais diferenças, entre o mundo ficcional e o real, em fim como a loucura está representada na obra em estudo.

Desta forma, buscou-se, no presente trabalho, analisar a representação da loucura na obra O Alienista, de Machado de Assis, refletindo sobre seus aspectos sociais e culturais. Bem como também se buscou refletir como a loucura é caracterizada e conceituada na obra em estudo; entender a relação entre loucura e sociedade, como a loucura é vista na sociedade do século XIX e correlacionar esses dados com os estudos da obra e do movimento literário no qual a obra literária se enquadra; fazer uma correlação entre o real e o ficcional, mostrando como a loucura e seus aspectos são abordados na vida real e na literatura e como as ideias sobre a temática estão correlacionadas com a literatura.

Assim sendo, o pressente estudo, de cunho bibliográfico científico, tem por aportes teóricos, estudiosos como Foucault, Pessoti, Paim, Rotterdam, Barthes, Coutinho, Cândido, dentre outros que se fizeram necessários. Desta forma, inicialmente, faremos um estudo dos teóricos citados, culminando com análise literária da obra O Alienista de Machado de Assis, a fim de encontrar subsídios para realizar uma apreciação da obra em destaque, correlacionando, assim, estudos literários e teóricos.

Portanto, o presente trabalho configura-se de suma importância, pois nos possibilita um estudo que nos permite a verificação das ideias acerca da loucura presentes na obra em destaque, bem como a maneira peculiar de Machado de Assis de abordar a temática da loucura, para trazer a tona problemas sociais, com uma crítica irônica peculiar. Desta forma, busca-se com este trabalho a compreensão das características psicológicas dos personagens da obra machadiana em estudo, bem como estabelecer uma ligação entre literatura e sociedade, uma vez que as práticas sociais encontram-se atreladas a literatura.    

Com pretensão de melhor situar o leitor do nosso estudo, distribuímos nossa pesquisa em tópicos, o que facilitará a familiarização com o texto. Assim, num primeiro momento abordamos os estudos acerca da loucura, no tópico: Loucura – múltiplas entradas conceituais, seguido de Uma breve história da loucura e da relação entre Loucura, Sociedade e Literatura: relações possíveis, culminando no tópico três, intitulado de, A loucura na obra O Alienista, de Machado de Assis, no qual faremos a apreciação crítica da obra, dividida nos seguintes tópicos: O Alienista: um pouco da obra e do autor; As personagens machadianas e suas características psicológicas; Os limites entre razão e loucura e seus aspectos culturais, sociais e psicopatológicos em O Alienista; Psicopatologia: Quem na verdade é louco na obra; caracterização e conceituação da loucura na obra, seguida das considerações finais.

 

 

 

Loucura : múltiplas entradas conceituais 

 

            Para iniciarmos nossas discussões acerca da problemática da representação da loucura na obra O Alienista, de Machado de Assis, faz-se necessário atentarmos para as diversas acepções do termo Loucura, uma vez que, dependendo da perspectiva e do enfoque teórico, o termo poderá assumir variadas compreensões, observando-se desde suas características biológica, psicológica a traços sociais e culturais.

Devido à complexidade do termo loucura e das tentativas de sua definição, propomos aqui levantar questões e discussões que possibilitem repensar a relação entre loucura e literatura, atentando para a sua representação na obra machadiana, e não apenas delimitar traços distintos considerados “normais” e “anormais”, uma vez que não é esse nosso intento, pois um estudo acerca dessas relações sociais presentes na literatura requer uma atenção e espaços ainda maiores que vão além do presente trabalho.

Dessa forma, nota-se que a loucura pode ter vários conceitos e definições. No que concernem as suas características biológicas, leva-se em consideração os aspectos genéticos e não-genéticos que atuam sobre fatores Endógenos e Exógenos, que seriam respectivamente os fatores internos e externos que atuam sobre o organismo do indivíduo. 

Outro ponto de observação acerca da conceituação da loucura encontra-se em sua perspectiva Psicossocial, que abordará entre outros temas, as privações afetivas, a má relação materno-infantil, vivências de desamparo, separações, perdas, desvios sociais e outros, que quando associados a características genético-hereditárias, tornam o indivíduo ainda mais  preponderante a loucura.

De acordo com a definição de Ferreira (1999), a palavra loucura significa:

1) estado ou condição de louco, insanidade mental. 2) um ato próprio de louco. 3) falta de discernimento, irreflexão, absurdo, insensatez, doidice, louquice. 4) imprudência, temeridade. 5) tudo que foge às normas, que é fora do comum, grande extravagância, louquice. 6) pessoa, animal ou coisa a que se devota grande amor ou entusiasmo.

 

Ferreira (1999) destaca, em sua definição, que a loucura, enquanto manifestação comportamental, está muito mais atrelada a características sociais e culturais, do que propriamente as características psicogênicas. Ou seja, características de ordem biológicas (genéticas) que interferem na capacidade psicológica e psíquica do indivíduo. Assim sendo, a conceituação de loucura por esse estudioso vem de um desvio da norma social vigente dentro da cultura, da qual o indivíduo faz parte, tornando-se então uma quebra destes valores sociais tidos como normais.  

            Ainda atentado para a abordagem social e cultural da loucura, nos deparamos com as contribuições de um estudioso da condição humana, e da sua alienação (loucura), sendo um dos mais devotados estudiosos desta temática: Foucault.

Em seus estudos sobre a loucura, Foucault sempre buscou estabelecer uma relação histórico-social sobre o fenômeno estudado, traçando um panorama amplo da relação entre loucura e sociedade, onde os valores sociais e culturais influenciam de sobremaneira a classificação e conceituação da loucura, sendo que a própria caracterização da loucura e o seu conceito não são homogêneos e estanques, são, ao contrário, heterogêneos e deslocam-se de acordo com os avanços da ciência.

Foucault, no seu livro História da Loucura na Idade Média faz uma análise das modificações dos discursos sobre loucura através do tempo. Segundo este estudioso, o conceito de loucura já teve inúmeras interpretações, mas foi no século XVII que sofreu grandes transformações. Como nos mostra Kessler & Augustin (2013 p.01), “deste momento em diante, o conceito de loucura desapega-se do mito e da religião, tornando-se um desvio genuíno, intricado não na falta da razão (ou da alma), mas no desvio dentro dela mesma.”    

Sob o ponto de vista filosófico, podemos destacar as contribuições de Erasmo de Rotterdam, no seu livro Elogio da Loucura (1508), que defende a loucura como algo que assume um sentido diferente daquele que é difundido amplamente na sociedade. O caráter da Loucura, segundo Rotterdam é positivo, “sendo que a loucura não é tida como demência ou tolice, mas sim como a disposição de viver a vida” (ROTTERDAM, 2006 p. 111). Nesse sentido, destaca o autor:

 

Minha opinião, ao quanto me parece, Loucura, é que quanto mais alguém é louco, tanto mais é feliz, contanto que se mantenha no tipo de loucura que é meu domínio bem vasto, por quanto não há sem dúvida, no gênero humano, um só indivíduo que seja sábio a todo momento e desprovido de qualquer espécie de loucura. (ROTTERDAM, 2006, p. 52).

 

 

A loucura mostrada por Rotterdam (2006) assume um aspecto positivo, considerada como uma “doce ilusão”, que liberta o homem dos modismos e convenções sociais, traduzido em sua força como o mais puro amor a vida e disposição de vivê-la dentro de sua mais profunda plenitude e simplicidade. 

Frayze-Pereira (1984), após levantar várias sentidos sobre a loucura, mostrando-a desde como uma situação de perda de consciência de si no mundo que condena a pessoa a existir à maneira de uma coisa, até a doenças, a distúrbios orgânicos e/ou emocionais, passando a tipo de desvio do comportamento pessoal em relação a uma norma sancionada, ou um estado progressivo de “desligamento” ou “fuga” da realidade, bem como uma tomada de consciência de si e do mundo. Vemos, portanto, que dependendo da acepção, a loucura pode ser abordada e vista de diversas formas, partindo desde uma perda de consciência até a (re) tomada dessa consciência, o que não nos permite afirmar que louco é aquele que foge à realidade ou que não tem certa consciência, uma vez que a loucura pode também ser caracterizada como uma tomada de consciência dessa realidade.

Notamos, pois que estão em destaque duas principais tendências conceptuais, como destaca o próprio Frayze-Pereira (1984):

 

Por um lado, temos a loucura concebida e particularizada como uma experiência corajosa de desvelamento do real, de desmontagem e recusa do mundo instituído a loucura é saber. De outro lado (e esta é a tendência mais forte), temos a loucura descrita como uma falha da forma pessoal, consciente, normal, equilibrada e sadia de ser, um desvio do grupo social: o louco é perigoso para os outros, senão para si mesmo. Esses pontos de vista, que alguns especialistas (médicos, cientistas sociais e filósofos) chegam a assumir, são discutíveis (FRAYZE-PEREIRA 1984, p. 10).

 

            De fato, todos esses pontos destacados pelo estudioso citado acima são e devem ser bastante discutíveis, uma vez que, como já destacamos, não podemos tachar pessoa alguma como louco, pois como ressalta o próprio autor: “crer numa loucura localizada no indivíduo e emprestar ao louco uma vestimenta que o transfigura em monstro não só tende a retirar-lhe o estatuto de humanidade, como também a nos fazer esquecer que algo se diz através da loucura” (FRAYZE-PEREIRA 1985, p. 10). Nota-se, portanto, que enfocar a loucura como algo individual significa restringir e desprezar um discurso que tem muito a dizer, pois, há um motivo, uma justificativa para que determinada pessoa aja e posicione-se de determinada maneira. Através da loucura, há muito que se dizer e muito mais o que se ouvir.

 

Um breve histórico da Loucura

 

 

As discussões acerca da definição da loucura enquanto “doença” são consideradas relativamente recentes por parte dos estudiosos da área que destacam a importância da obra História da Loucura, de M. Foucault, que segundo Frayze – Pereira (1985) fundamenta essa visão.

Quando nos referimos à loucura enquanto manifestação mental, portanto psicológica e social, com certeza nos vem à mente pensadores célebres dos mais diversos, como: Michel Foucault, Isaías Pessoti e tantos outros. Para mostrar o percurso da loucura desde seus primórdios, não podemos esquecer a contribuição de Philippe Pinel (1745 – 1826) conhecido como pai da psiquiatria, Pinel que instituiu a base para o estudo da Psicopatologia, mais especificamente sobre a alienação (loucura). No seu “Tratado médico- filosófico sobre alienação mental ou mania”, Pinel (1800) nos mostra a necessidade de atentarmos para dois problemas centrais na sua época: os limites do conhecimento sobre alienação, e o estabelecimento de um campo de pesquisa e sistematização capaz de tratar e curar as diversas manifestações da loucura.

Assim, nota-se que Painel centra sua atenção nas limitações que se tem acerca da alienação, bem como na necessidade de se estabelecer um campo de pesquisa capaz de estudar e curar as várias formas de loucura. Em relação a isso, destacamos a visão de Frayze- Pereira (1985) sobre o processo de constituição da loucura:

 

O que é originário no processo de constituição da loucura não é a psiquiatria (tornada possível justamente a partir dele, isto é, a posteriori), mas o ato que criou a distância entre a razão e a não-razão. É desta ruptura que nos fala Foucault para mostrar que a loucura emerge da relação com uma razão que necessita dela (loucura) para existir como razão (FRAYZE – PEREIRA, 1985 p. 46). 

 

 

            Vemos que o que se destaca no processo de constituição da loucura está relacionado com a separação que fora estabelecida entre razão e a falta dela. Assim, o autor nos mostra a necessidade da existência da loucura, uma vez que é por meio dela que se estabelece a razão como o seu contraponto.

            É a partir do estabelecimento dessa relação entre razão e loucura que surgem os institutos para cuidar dos alienados, com a criação dos asilos. Assim, “no fim do século XVIII a instituição psiquiátrica passa a ser LUGAR DE CURA “[...] A casa de internamento vai transforma-se em asilo” (FRAYZE – PEREIRA, 1985 p. 83). Os institutos, denominados de asilos, eram na verdade uma reformulação dos manicômios, visto que no século XVIII a conceituação e classificação da loucura havia evoluído da falta da razão para um status de transtorno da razão, configurando-se como uma doença a ser tratada. Sob esta ótica, os alienados deixavam de ser encarados pela perspectiva religiosa, que os compreendia como sendo possuídos por demônios e criaturas sobrenaturais, passando então para um plano cientificista, que procurava tratar de forma racional e sistemática a alienação, buscando concomitantemente a sua origem . Nasce então a psiquiatria enquanto especialização médica.            

A loucura, no século XIX passa a ser denominada de “afecções morais”, tendo as paixões da alma como suas principais causas, marcadas como excesso relativo ao amor, à ordem social ou aos sentimentos, resistentes à regularização que deveria ser realizada pela razão. Corroborando com essa visão Frayze-Pereira (1985) destaca que:

 

 No fim do século XIX a loucura é considerada “uma desordem que se manifesta pelas maneiras de agir e sentir, pela vontade e liberdade do homem. Agora, não se diz de um homem – louco que ele perdeu a verdade, mas sua verdade. Isto significa que é atribuído a loucura um valor psicológico. Ela se torna o efeito psicológico de uma falta moral. A loucura não é ruptura com a humanidade, mas algo cuja verdade se esconde no interior da subjetividade humana. Nesse sentido, a loucura deixa de se referir ao não-ser e passa a designar o ser do homem. E, através desse redimensionamento do problema, a reflexão sobre a loucura torna-se uma reflexão sobre o homem (FRAYZE-PEREIRA, 1985 p. 88).

 

Se por um lado os loucos libertaram-se das amarras materiais, e do enclausuramento e distanciamento físico da sociedade, não conseguiram, entretanto livrar-se do “encarceramento moral” que lhes foi atribuído, sendo que os asilos tornaram-se, segundo Foucault “numa espécie de instância perpetual de julgamento […] a sansão tinha que seguir imediatamente qualquer desvio em relação a uma conduta normal” (FOUCAULT, 1975, p. 82), destacando-se o papel do médico que se torna mais relativo à imposição de sansões morais, ao  invés de uma intervenção terapêutica.     

Ao Longo do processo histórico da loucura, seu sentido ganha acepção de “Fato de Civilização”. A esse respeito destaca Frayze-Pereira:

 

Na segunda metade do século XVIII, a concepção da loucura vai estar ligada a certa crítica dos tempos modernos. A loucura situada num contexto histórico e social [...] a loucura é vista como a contrapartida necessária do progresso […] (FRAYZE – PEREIRA, 1985 p.74).

 

 

A partir destes preceitos podemos perceber que a relação entre loucura e sociedade é mais complexa do que parecia ser inicialmente. A identificação entre a pessoa louca e a pessoa sã mentalmente se difere por meio das características culturais. Ou seja, o valor cultural, a importância que é atribuída pela comunidade estabelece os critérios para a normalidade ou a falta dela, sendo as pessoas que têm um “desvio” comportamental, no que diz respeito aos hábitos de vida e de convivência social, apontadas como loucas. 

 

[...] Em suma, […] Cada sociedade forma da doença um perfil que se desenha através do conjunto das possibilidades humanas enfatizadas ou reprimidas culturalmente. São aberrantes os indivíduos cujos comportamentos não são confirmados por instituições da cultura de que fazem parte. Assim, a doença é variável como variam os costumes. [...] Ou seja, reduzir a natureza da loucura a um mero desvio é tornar universal a visão cultural particular: é próprio à nossa cultura dar à doença o sentido de desvio e ao doente um status que o exclui’ (FOUCAULT, apud FRAYZE-PEREIRA, 1985 p. 27 – 28) [Grifo nosso]    

 

            Pode-se destacar do pensamento de Frayze-Pereira (1984), que a loucura varia, e esta variação sempre dependerá das interações sociais e culturais entre os grupos. Levando-se isso em consideração, nota-se que o que se caracteriza como loucura na Holanda, por exemplo, pode não ser caracterizado da mesma forma no Brasil, pois como já foi destacado, existe também a observação cultural a ser feita sobre a representação da loucura dentro de uma comunidade. Observação essa de extrema necessidade, uma vez que a noção de falta de razão varia da mesma forma que os costumes variam, sendo o fator cultural decisivo para a designação da loucura.   

            Dessa forma, como destaca Frayze-Pereira (1984), o processo histórico da definição e caracterização da loucura passou por três grandes momentos, a saber: o período de liberdade e de verdade, últimos séculos medievais e o século XVI, quando a loucura faz parte da vida cotidiana, caracterizando-se como a aproximação da morte. Na literatura desse período, especialmente no século XV, a loucura governa as fraquezas humanas e é por meio da arte literária que a loucura “insere-se num universo moral” Frayze-Pereira (1984, p.55). O segundo período, considerado da “grande internação”, correspondentes aos séculos XVII e XVIII, quando se destaca a hospitalidade da loucura para as artes plásticas, para a literatura e obras filosóficas, já mostrando, segundo Frayze-Pereira (1984), duas direções diferentes que vão nortear a ideia de loucura na modernidade. “A loucura deve ser domesticada e embrutecida, pois a sua natureza é diferente da natureza do homem” Frayze-Pereira (1984, p.68). O último período destaca-se com a atuação da Psiquiatria ao lidar com os loucos que enchem os asilos, séculos XIX e XX, confrontando a loucura com uma certa normalidade de conduta. A loucura passa a ser vista como um objeto e experiência de conhecimento.

 

 Loucura, sociedade e literatura: relações possíveis

 

 

A temática da loucura não é algo novo na literatura. Desde a Antiguidade Clássica podemos perceber o interesse por essa temática, presente desde as tragédias gregas passando a Hamlet de Shakespeare, seguindo para Dom Quixote e o Surrealismo na prosa pós–moderna. Todos em um dado momento enxergam a necessidade de investigar a relação entre razão e loucura. Portanto, como destaca Frayze-Pereira (1985) é por meio da literatura que a loucura se insere no universo moral.

            Diante disso, há de se destacar várias obras literárias que abordam a temática, como o conto “A enfermaria nº 6” de Tchekhov que traz uma temática similar a de O Alienista, de Machado de Assis, onde o médico que questiona a relação entre normalidade e anormalidade, razão e loucura, entra em choque com a razão e acaba vítima da própria instituição da qual fazia parte. Entretanto, o conto de Tchekhov difere do conto machadiano, pois aquele traz uma linguagem muito forte e pesada, ao passo que na escrita de Machado percebemos uma linguagem mais leve, mas com uma crítica ao extremo, chegando a se tornar satírica, pois sua escrita tem uma subjetividade autentica, podemos perceber até os elementos de riso, o deboche e o humor.

Outro autor que aborda a loucura é Guy de Maupassant nas suas obras “O Horla” e   “ Carta de um louco”, onde explora a relação entre a ciência e o desconhecido e caracteriza a loucura pela perspectiva do duplo, relacionado-a com a  quebra da identidade e da relação entre o eu e o mundo exterior.  

Assim, frisamos que O Alienista, de Machado de Assis, não é a primeira obra literária brasileira a tematizar a loucura. Este tema já havia surgido nos contos de “Noite na taverna”, de Álvares de Azevedo, e no romance “O seminarista”, de Bernardo Guimarães. O próprio Machado criara um protagonista louco, o Frei Simão, que intitula o último dos Contos fluminenses. Contudo, O Alienista é a primeira obra literária brasileira a figurar o hospício e a questionar o status próprio da psiquiatria. (PAULO, 2012)   

O conceito de loucura enquanto doença mental é marcante dentro das representações sociais e incorporado em convenções sociais. Assim, nota-se que há o que podemos denominar de padrões sociais de loucura, conforme destaca Frayze-Pereira:

 

 [...] dizer que há modelos sociais de loucura significa que o individuo não enlouquece segundo seus próprios desígnios, mas segundo um quadro previsto pela cultura da qual é membro. [...] E isto significa que a loucura é uma criação cultural […] (FRAYZE – PEREIRA, 1985  p. 29).

 

 

            Nessa perspectiva, pode-se perceber que o indivíduo acometido pela loucura não se percebe como louco, pois dentro de sua visão singular, não encontra nada de anormal que o posso distingui-lo dos demais indivíduos. Assim sendo, será sempre a sociedade quem irá apontar as marcas de traços peculiares da loucura e da sanidade, pois é ela quem indica como louco aquele que se desvia dos padrões culturalmente aceitos. Sobre isso, destaca Frayze-Pereira:

 

 [...] a discriminação do normal e do patológico independe de contextos institucionais particulares. Isto é, a loucura é um fenômeno (psicológico e cultural) que pode assumir mil facetas, mas cuja forma é constante. Ora, à medida que a loucura significa um defeito da capacidade humana universal de simbolização e que esta define a humanidade bem como a cultura, ser louco significa ser desumanizado (des – culturalizado), isto é, aquele que rompeu com a natureza humana. (M. Foucault, Doença Mental e Psicologia apud FRAYZE-PEREIRA, 1985 p. 34).        

 

            Não são fatos estabelecidos pela natureza, mas são ideias e conceitos complexos desenvolvidos por grupos sociais e legitimados por validade consensual que indicam que ser louco, é ser antes de tudo, um ser sem cultura que deixa de agir segundo os costumes marcados como corretos e passa a agir segundo seus próprios extintos, o que segundo o ponto de vista social e cultural, o exclui da natureza humana, passando então o indivíduo a fazer parte de qualquer categoria, menos à dos homens.        

 

[...] A loucura incorpora-se numa nova “EXPERIÊNCIA DO DESATINO” [...] sob a forma de um relacionamento imaginário com os poderes ocultos do mundo [...] a loucura indissociavelmente ligada a uma má vontade, a um erro ético. A Grosso modo, isto significa que um individuo enlouquece por ter desejado ser louco [...] isto é, a loucura pressupõe uma escolha perversa [...] Não é um julgamento dos médicos, mas dos homens de bom senso, que determinam o internamento dos loucos (FRAYZE – PEREIRA, 1985 p. 68 – 70). [ grifo nosso]  

 

             As observações de Frayze-Pereira acerca da loucura a classifica como um acontecimento social. Assim, a ideia de loucura passa a ser incorporada a uma representação do pensamento social coletivo do que venha a ser ela própria enquanto manifestação.

    

 

[...] Com efeito, crer numa loucura localizada no individuo e emprestar ao louco uma vestimenta que o transfigura em monstro não só tende a retirar-lhe o estatuto de humanidade, como também a nos fazer esquecer que ago se diz através da loucura. Isto é, algo cujo sentido denuncia o contexto na qual ela emerge. [...] (FRAYZE – PEREIRA, 1985 p. 11).

 

            Vemos que a concepção de Frayze-Pereira (1985) corrobora para a noção de correlação entre sociologia e patologia mental, afirmando que a doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal.

 

 A loucura na obra O Alienista, de Machado de Assis : um pouco da obra e do autor

 

Joaquim Maria Machado de Assis é considerado um dos mais importantes escritores da literatura brasileira. Destacou-se como poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário. Filho de uma família humilde nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho 1839. Mulato e vítima de preconceito, perdeu na infância sua mãe e foi criado pela madrasta. Superou todas as dificuldades da época e tornou-se um grande escritor.

Antes de se destacar como escritor, estudou numa escola pública durante o primário e trabalhou como aprendiz de tipógrafo, foi revisor e funcionário público. Trabalhou como colaborador de algumas revistas e jornais do Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente.

Podemos dividir as obras de Machado de Assis em duas fases: Na primeira fase (fase romântica) destacam-se os personagens com características românticas, sendo o amor e os relacionamentos amorosos os principais temas. Na Segunda Fase (fase realista), há uma abertura de espaços para as questões psicológicas dos personagens, retratando as características do Realismo literário. Machado de Assis faz uma análise profunda e realista do ser humano, destacando suas vontades, necessidades, defeitos e qualidades.

Nas palavras de Lúcio Alcântara:

 

Mestiço, filho de pais pobres, criado na periferia das casas grandes do morro do Livramento, valeu-lhe o zelo da segunda mãe para garantir-lhe o aprendizado básico sobre o qual ergueria um monumento de cultura e erudição, como autodidata que foi. Sobre esse início, que lhe marcaria a caminhada, deita véu de silêncio, corta amarras com o passado. Aos poucos ascende socialmente, frequenta a livraria de Paula Brito, ponto de encontro de literatos e políticos, ingressa no serviço público, inicialmente como tipógrafo da Imprensa Nacional, começo de longa carreira na burocracia. Acerca-se das rodas literárias, aceito entre adultos de reputações estabelecidas, vislumbrado seu talento e interesse pelas letras. Estão dadas as condições para o início de uma brilhante carreira a ser feita com a superação de obstáculos derivados da origem humilde e de limitações físicas que fizeram seu tormento e alimentaram sua criação (ALCÂNTARA, L. 2008 p. 1).

 

             Nota-se que Machado sofreu, possivelmente, preconceito por sua origem, bem como   rejeição de alguns membros da sociedade, o que pode ser ilustrado, por exemplo, pela oposição da família de Carolina em relação ao casamento dos dois. Os preconceitos e rejeições que Machado fora obrigado a submeter-se o tornaram uma alma torturada, um homem temeroso, com medo da vida, receoso de contrariar as pessoas, com tédio a controvérsia, contudo , mordaz na crítica.            

Completa-se as desventuras em série de Machado, o fato deste ser portador de epilepsia, moléstia que era vista na sua época de forma estereotipada, sendo mais um “motivo” para preconceito, discriminação e por consequência exclusão.  Todavia, conhecer essa doença do autor, direciona as observações a possíveis inferências a respeito da possibilidade de Machado de Assis ter relatado, mesmo que de forma indireta, suas próprias moléstias e desatinos.

            Segundo Ribeiro do Valle (1918, p. 167 a 168), na sua obra Psicologia mórbida na obra de Machado de Assis, “a capacidade e sensibilidade da escrita para conhecer e descrever o funcionamento inconsciente e os estados patológicos dele decorrentes estaria fundamentada em sua” personalidade anormal”, apoiada em seu passado hereditário- mórbido [...]”.

Ainda segundo o mesmo estudioso (1918, p. 70) “Machado de Assis dissecou os instintos humanos pelo egoísmo de encontrar nos outros as mesmas falhas, erros e taras de sua organização mental doentia”. Por este ângulo, justifica-se o interesse de Machado por temáticas sempre recorrentes a psicologia e a desorganização mental, beirando em alguns personagens o caráter de uma personalidade desajustada sombria e mórbida, por ser uma busca por auto retratar-se, mostrando em sua obra sombras de quem era na realidade, assim, percebe-se a dicotomia obra – autor. 

            A partir desse entendimento sobre Machado de Assis, podemos inferir que na sua busca por mostrar a interioridade de seus personagens e sua recorrente tematização do anormal, e quebra de convenções, como uma discussão em torno da norma, de sua existência, de sua busca, da delimitação entre a loucura e a razão, objetivo de Simão Bacamarte (LIMA, 2009, p. 642).

O conto O Alienista, publicado em 1882, incorporado ao livro Papeis Avulsos, que teria anteriormente sido publicado em “A Estação” (Rio de Janeiro) em 15 de Outubro de 1881 a 15 de Março de 1882, está situado na segunda fase de Machado de Assis. Nessa obra, Machado usa ironicamente o transluzir da visão de mente humana, levando o leitor a fluir entre razão e loucura. Também questiona os posicionamentos sociais e a relação entre ser racional ou desequilibrado, destacando qual desses posicionamentos verdadeiramente importa para conquistar respeito e soberania.

A obra enquadra-se no chamado movimento realista, que se caracteriza por ter uma preferência pelos fatos reais, encarando a vida de forma objetiva, analisando a realidade tal como é e não como deveria ser.

Assim o Realismo assume uma estreita relação com a vida real, pois este movimento retira as suas vivências e temáticas dos assuntos correntes da sociedade. Assim sendo, encara seu objeto de análise de forma objetiva, assumindo um tom documental, quase que beirando uma fotografia social. As pessoas retratadas por este movimento são as excluídas socialmente e marginalizadas, por esta razão, ma obra realista verse a exposição dos “humildes e obscuros, dos subalternos”.

Segundo Coutinho (1959, p. 185 a 187), o Realismo pode ser caracterizado como:

Procura pela verdade por meio de um retrato fiel da realidade, apoiando-se nas vivências cotidianas dos personagens; Busca da verdade nos personagens, pois estes são mostrados como indivíduos concretos, conhecidos no enredo, sendo mostradas as suas interioridades e emoções; Encara a vida objetivamente, e não há no enredo a intromissão do autor (narrador neutro); Interpreta a vida com toda a sua vivacidade, usa um método quase que documental para mostrar a história; Aborda a vida contemporânea, sua preocupação são os homens e mulheres, emoções e temperamentos, sucessos e insucessos. Com o espaço construído nas cidades, nas minas, nas fabricas, ou em qualquer lugar onde o conflito humano fosse possível; Narrativa move-se lentamente, mantendo maior interesse no detalhe, na minúcia; Linguagem mais próxima da realidade, com mais simplicidade e naturalidade.  (Coutinho, 1959)

 

              A preocupação na concepção literária realista era mostrar a realidade, formando-lhe um retrato fiel e preciso. Neste sentido, pode-se dizer que o Realismo foi um estilo engajado com a realidade, assumindo uma atitude polêmica e crítica em relação à sociedade burguesa de então e aos valores apregoados pela época. 

            Atentado para a obra em estudo, O Alienista, destacamos, que para alguns críticos, o caracteriza como uma novela, pensamento esse justificado pelo grande número de páginas, que em algumas edições chega a somar mais de oitenta. Todavia, dados quantitativos por si só não constituem uma base plausível para classificação, visto que para tanto lhe falta elementos outros que norteiem essa escolha, como por exemplo: grande número de células dramáticas; desenvolvimento de inúmeras situações de conflito e problemáticas diversas; preferência pelo enredo, onde a análise assume um segundo lugar.

            Pelo exposto acima, pode-se perceber que O Alienista pode ser classificado, portanto, como um conto de grande extensão, como ressalta Massaud Moisés:

 

[...] se fosse novela, seria a única que a pena de Machado de Assis escreveu, quando sabemos, pelas características fundamentais da novela [...], que seu talento era infenso a tais preocupações. É um conto, dos mais extensos que escreveu, mas conto apesar disso, pois o número de páginas é pormenor secundário para classificar a obra (MASSAUD p. 173).                

 

Se atentarmos para o foco narrativo da obra, veremos que se trata de um narrador onisciente neutro (FRIEDMAN, 2003), pois este detém de um conhecimento ilimitado acerca dos fatos e dos personagens.

            Envolto em um tom documental, por se tratar de crônicas, como afirma o autor, o conto baseia-se no passado, sendo mais especifico, o final do século XVII e início do século XVIII na cidade de Itajaí, no estado do Rio de Janeiro.

            O enredo da obra em análise se passa no século XIX, retratando a burguesia hipócrita da época. O autor se vale do personagem Dr. Simão Bacamarte (O Alienista) que se casou com D. Evarista, que não tinha nenhum atributo de beleza, mas tinha todas as chances de dar-lhe filhos robustos e inteligentes, o que não acontece, levando o doutor a dedicar-se ao estudo da medicina em especial a neurologia, estudando assim a sanidade e a loucura humana.

Decidiu construir em Itaguaí uma residência onde os loucos da cidade se instalariam e seriam tratados, empreitada que D. Evarista tentou desconstruir inventado uma viagem ao Rio de Janeiro, mas que não obteve êxito. Então foi inaugurada a Casa Verde e Dr. Simão estudava e dedicava-se ao seu trabalho. Obcecado pelo trabalho o Alienista decide colocar toda a cidade na Casa Verde, pois considerava que todos eram loucos. No início a vila de Itajaí aplaudiu a atuação do Alienista, mas seus exageros ocasionaram um motim popular, a rebelião das canjicas, liderados pelo ambicioso barbeiro Porfírio. Porfírio acaba vitorioso, mas em seguida compreende a necessidade da Casa Verde e alia-se a Simão Bacamarte. Há uma intervenção militar e os revoltosos são trancafiados no hospício e o Alienista recupera seu prestígio. Entretanto, Simão Bacamarte chega à conclusão de que quatro quintos da população internada eram casos a repensar, soltando todos os recolhidos no hospício, adotando critérios inversos para a caracterização da loucura: os loucos agora são os leais, os justos, os honestos. Em suas reflexões Bacamarte verifica que ele próprio é o único sadio e reto, por isso decide internar-se no casarão da Casa Verde, onde morreu dezessete meses depois e recebeu honras póstumas.

     

As personagens machadianas e suas características psicológicas

           

Segundo o filósofo húngaro Lukács (1965), na literatura moderna a narrativa distende-se em duas perspectivas, que seriam o narrar e o descrever, sendo que, a depender da perspectiva adotada, a narrativa assume um caminho diferenciado na literatura realista. A título de exemplo, Lukács cita os romances realistas de Flaubert, Balzac e Zola, como uma literatura altamente descritivista, ou seja, com ênfase no detalhe dos espaços e ambientes do texto, chegando ao ponto de descrevê-los em seus pormenores. Todavia, “é o decorrer da narrativa que leva os personagens ao desvelamento de suas individualidades” (Lukács, 1965, p. 47).  Assim sendo, Machado de Assis, especializa-se na abordagem narrativa, analisando de forma minuciosa e detalhada não o ambiente, mas o personagem, sua constituição, seus desejos, anseios e interioridade.

Na sua narrativa Machado de Assis procura mostrar os personagens como seres singulares e notoriamente humanos, apontando a psicologia humana. Diante do que estudamos da obra O Alienista, podemos destacar como características trabalhadas por Machado de Assis a singularidade na narrativa; personagens apresentados com alto teor de complexidade; duelos morais que conduzem ao desfecho; o narrador ocupando um espaço central – sempre onisciente, mostrando os anseios e motivações dos personagens; descrição minuciosa dos personagens; forças psicológicas que atuam sobre o conto e o norteiam a direcionar a ação dos personagens; relação de poder e o jogo intricado entre o querer e o poder; pessoa moral, mostrando as objetivações dentro dos valores e sentimentos próprios dos personagens que os individualizam.

            A individualização dos personagens criada por Machado de Assis converge para uma espécie de laço moral, onde os leitores passam a estabelecer ligações, laços com os personagens, reconhecendo-os e identificando-se com tais. Desta forma, Machado de Assis em sua narrativa desenvolve uma caracterização psicológica que é desencadeada dentro das relações sociais estabelecidas entre os personagens.

Outra faceta, de Machado de Assis diz respeito às análises feitas diretamente por um narrador onisciente, que dá a escrita a sua uma maior complexidade, sendo que sua atenção está focada no emaranhado dos relacionamentos. Como podemos observar na passagem: “Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde” (ASSIS, 2010, p. 08). Aqui observamos que o narrador apresenta-se como conhecedor dos traços psicológicos do protagonista.             

Segundo Lukács (1965) a configuração determinista do personagem é própria do movimento realista do século XIX, que considerava esses determinantes do personagem como representantes de diversas classes sociais.

 

 Os limites entre razão e loucura e seus aspectos culturais, sociais e psicopatológicos em O Alienista

 

A loucura quando representada na literatura não assume o mesmo caráter que lhe é condicionada na vida real. Pois, na literatura, via de regra, os personagens alienados (loucos) podem manifestar-se abertamente, agindo de acordo com seus instintos mais primários. Conforme Rotterdam (2006, p.44) “[…] Assim como a ignorância da gramática não poderia tornar o cavalo infeliz, assim também a loucura não causa a infelicidade do homem, por quanto ela é inerente ao homem.” Pode-se observar que na visão literária, portanto, ficcional, a loucura assume uma conotação diferente da vida real, pois a loucura é vista como libertadora. Além disso, como destacamos anteriormente a definição e caracterização da loucura varia de acordo com a cultura e sociedade na qual se encontra inserida. Sobre isso, vejamos a seguinte passagem: “Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas.” (ASSIS, 2010, p. 09). Vemos, pois que na obra há uma divisão, uma subclassificação para o internamento dos considerados loucos.

Ao contrário do que acontece na vida real, a loucura na ficção é retratada como uma expressão genuína, de liberdade criadora, condição quase que de gloria. Rotterdam (2006, p. 44) mostra essa visão: “Parece-me ouvir alguns filósofos reclamando: 'sem duvida, é uma grande desgraça que alguém seja mantido, pela loucura, na ilusão, no erro e na ignorância'. Não, estão totalmente enganados, pois é justamente nisso que consiste ser homem.”

Na vivência real, porém, a loucura é tida como um mal social infortúnio dos homens, não causando nada além de tristeza e sofrimento para aquele considerado louco e para a sua família e, por extensão a toda a comunidade que fica envolta a situação. Notoriamente, muito diferente daquilo que Rotterdam aborda na sua obra Elogio da loucura, conforme trecho abaixo:

Minha opinião, ao que me parece, loucura é que quanto mais alguém é louco, tanto mais é feliz […] por quanto não há sem duvida, no gênero humano, um indivíduo que seja sábio a todo momento, ninguém dentre os mortais é sábio a qualquer hora, e desprovido de qualquer espécie de loucura. (Rotterdam, 2006, p. 52).       

 

 

Em O Alienista, Machado de Assis revela uma visão satírica, irônica e amarga que enfatiza aspectos negativos denunciadores da frustração humana. O autor utiliza o humor para desmascarar a hipocrisia humana, provocada por um sistema social regido pela falta de valores. Simão Bacamarte, pois, como alienista, está preocupado em fazer uma análise psicossocial dos habitantes da cidade de Itaguaí e região. No entanto, por trás dos atos aparentemente dedicados à ciência, a verdadeira intenção de Bacamarte é atingir status e fama através das anomalias patológicas. Machado de Assis, assim critica o cientificismo da época.

 

Psicopatologia: Quem na verdade é louco na obra   

 

O que vem a ser juízo? Como podemos entender a relação entre um juízo perfeito e um patológico? Paim (1993) nos responde da seguinte maneira, “O juízo pode expressar a verdade ou o erro, conforme suas afirmações correspondem ou não à realidade. Por está razão, o único critério de verdade dos juízos é a sua consonância com a realidade objetiva” (PAIM, 1993).

            A busca extrema pela razão leva o alienista, na obra machadiana, à loucura. Na concepção de Pinel, a loucura é um distúrbio da razão dentro dela mesma. Desta forma podemos concluir que a fronteira entre o normal e o anormal são frágeis, e que a loucura atrela-se ao exagero do homem dentro das características que englobam sua personalidade.  

            O Dr. Bacamarte apresenta características de uma pessoa delirante, apresentando assim um delírio primário.  Segundo o teórico Kurt Schneider podemos classificá-lo dentro de uma percepção delirante. Mas, afinal, o que vem a ser isso? O próprio Schneider responde.

 

Fala-se de uma percepção delirante quando se atribui a uma percepção normal um significado anormal, na maioria das vezes no sentido da auto- referência, sem que para isso existam motivos compreensíveis, não só do ponto de vista da razão como dos sentimentos (SCHNEIDER apud PAIM, 1993).         

 

            Sendo enquadrado como um delírio genuíno, portanto, podemos neste caso, perceber de forma nítida o enquadramento do Dr. Bacamarte na categoria do delírio de grandeza, que é caracterizado por ser:

Em resumo, na percepção delirante, pode-se destacar estas características: 1º.) atribuir a uma percepção real um significado anormal; 2º.) este significado é, quase sempre, no sentido da   auto – referência; 3º.) a significação delirante é experimentada pelo enfermo como imposta, daí o seu caráter de vivencia numinosa; 4º.) a significação não é só estranha, como incompreensível; 5º.) a significação emprestada à percepção delirante tem sentido de “ aviso”, através do qual se expressa uma “realidade superior”  (PAIM, 1993).

 

 

Podemos perceber pelo trecho abaixo, extraído da obra a exemplificação deste delírio de grandeza:

 

O principal nesta minha obra da casa verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificando-lhes os casos, descobrir em fim a causa do fenômeno e o remédio universal. (ASSIS, 2010, p.20)               

 

Uma vez que o Dr. Bacamarte não poupa esforços para provar e testar as suas teorias a cerca da loucura e, consequentemente sua aplicação de juízo de valor sobre os habitantes de Itajaí. Sendo ainda que propagou suas ideias de forma intensa, chegando a escrever cartas para as autoridades de Itajaí, no caso a Câmara de vereadores.

Além disso, o protagonista mantinha um pensamento fixo a cerca de seus pacientes, mantendo assim, um pensamento utópico sobre suas capacidades, principalmente quanto a sua habilidade em criar uma cura para a loucura.

Mira y Lopez in Paim Afirma:

 

 […] A distinção entre esse tipo de doente mental – geralmente esquizofrênico paranóides e os indivíduos normais que defendem pontos de vista de modificação da estrutura social virgente pode ser feita tomando-se como base três pontos essenciais: 1º) a convicção na originalidade de suas concepções; 2º) a falta de lógica das mesma s ; 3º) a ausência de senso de oportunidade para propaga-las” ( PAIM , 1993).        

 

 

Levando em consideração as evidências elencadas, podemos inferir que de fato o Dr. Bacamarte apresentava uma desorganização psíquica, que era acompanhada por um forte desejo interno de conhecer e curar a loucura, sendo que está ideia fixa transformou-se em obsessão delirante, sim uma de grandeza, que acabou por custar-lhe a sanidade. As consequências dos atos do alienista foram nocivas não só para ele, como também para todo o povo de Itajaí. Pois, ao concluir como verdadeiros os seus delírios, o Dr. Bacamarte subjugou, então, uma cidade inteira a um regime de terror.    

 

Considerações Finais

 

Com a efetiva análise do conto O Alienista, adentramos no universo da loucura e suas (re) significações dentro do contexto histórico-social a qual se insere. Assim, buscou-se durante toda a pesquisa estabelecer e compreender as relações e representações existentes entre loucura e texto literário.

Desta forma, compreendeu-se que a loucura se manifesta das mais diversas maneiras, e que depende, de forma substancial, do substrato cultural e social para configurar-se na forma que se estabelece. Assim, verificou-se a loucura não só na população de Itajaí, como também no personagem que representava a ciência e seus anseios, a saber, no Dr. Bacamarte.

Desta forma, compreende-se ao longo do trabalho, que a loucura está representada na obra em análise de tal maneira qual é vivenciada na vida real, pois, ao contrário de outras obras ficcionais, onde a loucura liberta e traz a essência verdadeira do homem, na obra O Alienista, a loucura aprisiona, discrimina e exclui, mostrando assim o caráter de realismo empregado na obra. Ao mesmo tempo em que Machado é crítico quanto aos costumes burgueses e a crença desenfreada na ciência, este escrutina a loucura e os valores sociais e culturais de sua época.      

Percebemos também que a obra O Alienista não se fixa apenas nos confrontos internos do discurso da loucura com busca de critérios rígidos de classificação, mas também uma investigação em torno do poder da ciência. A obra machadiana revela os discursos de uma época (século XIX), mas que alcança os nossos dias.

Além disso, Machado de Assis representa a loucura por meio de metáforas e ambiguidades resultantes da contradição de um discurso normalizador. Assim, normal e anormal se fundem num mesmo espaço literário na figura do protagonista, tendo a loucura emblemática no conto como reflexo da profundidade dos problemas sociais do século XIX.

Em suma, notamos que a obra machadiana em análise evidencia as figuras que reproduziam a sociedade cientificista do século XIX e que a loucura, configurada como temática central, está relacionada aos costumes e os procedimentos habituais da época. Da mesma maneira, as caricaturas que remetem aos comportamentos e instâncias culturais advindos daquele contexto nos fazem perceber que parece haver mais loucura na pretensão de estabelecer com clareza a linha divisória entre razão e loucura do que em perder-se entre seus supostos limites. Além disso, destacamos que Doutor Bacamarte acaba construindo um discurso de classes em torno das ideias defendidas por parte dos habitantes de Itajaí.

 

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LITERATURA E LOUCURA: REALIDADE E FICÇÃO SE UNEM NA OBRA O ALIENISTA DE MACHADO DE ASSIS LITERATURA E LOUCURA: REALIDADE E FICÇÃO SE UNEM NA OBRA O ALIENISTA DE MACHADO DE ASSIS Reviewed by Real Conhecer on abril 12, 2021 Rating: 5
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